segunda-feira, 18 de maio de 2015

Hoje, encontrei este poema que sangra e cicatriza a alma,  do excelentíssimo Paulo Leminski de sua obra Caprichos & Relaxos (1983). Apreciem!!



Para a liberdade e a luta

Me enterrem com os trotskistas
Na cova comum dos idealistas
Onde jazem aqueles
Que o poder não corrompeu
Me enterrem com meu coração
Na beira do rio
Onde o joelho ferido
Tocou a pedra da paixão
Meu coração de polaco voltou
Coração que meu avô
Trouxe de longe pra mim
Um coração esmagado
Um coração pisoteado
Um coração de poeta
Escura a rua
Escuro
Meu duro desejo
Duro
Feito dura
Essa duna 
donde o poema
Espuma
Doendo
Explode
Hoje o circo esta na cidade
Todo mundo me telefonou
Hoje eu acho tudo uma preguiça 
Esses dias de encher a linguiça
Entre um triunfo e um Waterloo
Você
Que a gente chama
Quando gama
Quanto está com medo
E mágua
Quando esta com sede
E não tem água
Você
Só você
Que a gente segue
Até que acaba
Em cheque
Ou em chamas
Qualquer som
Qualquer um
Pode ser tua voz
Teu zum zum zum
Todo susto
Sob a forma
De um súbito arbusto
Seixo solto
Céu revolto
Pode ser teu vulto
Ou tua volta
Esperas frustas
Vésperas frutas
Matéria bruta
Quantas estrelas custas?





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